19 de janeiro de 2010

Déjà vu

Mais uma noite que promete ser longa. Agora, exatamente agora, tudo o que eu queria era ter com quem conversar. Passa da meia noite, os poucos que ouso chamar de amigos dormem, cada qual em seu descanso mais que merecido, tão necessário para que um novo dia se faça e se complete, amanhã. Não quero nem vou incomodar. Sei que muitos o fazem, que há pessoas que quando precisam procuram, e não há nada de errado, mas isso eu não sei fazer. Tenho a sensação de estar atrapalhando, e isso me reprime. Um único número atravessa-me os pensamentos, a certeza de que ao menos seu sono eu não iria importunar. Mas noite passada tentei por duas vezes, o telefone tocou, chamou até que uma mensagem ganhasse a vez. Não me atendeu. E imagino que hoje, também não me atenderia.

É estranha essa idéia que tenho de que não colho aquilo que planto. Quando precisam de mim, estou sempre ali, por mais que me doa, por mais que haja algum problema. Mas o contrário não é verdadeiro, e me vejo sozinha sempre que mais preciso, quando estou confusa, triste, fora do meu normal, quando a mulher paciente, centrada, boa ouvinte, perde a vez. Não acho que isso seja dar obrigando a receber. Não faço na intenção de ter o mesmo quando preciso, mas fica, sim, a esperança de ter com quem contar. Aqueles que ajudo são para mim importantes demais, os que chamo de amigos são raros, e humana que sou, carente, problemática, busco aqueles que considero um apoio a ajuda para suportar os momentos difíceis, e é triste quando ele não vem. Ok, sozinha é mais difícil, mas não deixa de ser um aprendizado.

E vai ver, eu nem sou tão legal assim. Vai ver penso que ajudo, quando na verdade não faço nada de especial. Quem sabe eu não esteja colhendo, sim, aquilo que venho plantando?

O momento é crucial. Não bastassem as incertezas, o fim de um ciclo profissional, estou, mais uma vez, emocionalmente frágil. Meus medos, meus dramas, tudo o que nunca fora esquecido, vejo retornando com a mesma força de tempos atrás. "Até parece que você gosta de sofrer, Angel...", "Como você é tola, Angel...", vejo isso estampado nas críticas veladas que me fazem. E pelo jeito, eu devo mesmo ser.

É isso. E quem quiser julgar minhas palavras, sinta-se a vontade. Já sei que serão mesmo julgadas, distorcidas, maculadas, e servirão de esteio para que muito seja angariado ou justificado. Podem julgar, mas ninguém sabe exatamente o que se passa aqui.

Força. Eu só preciso de força. E eu sei que ela está aqui dentro, escondida em algum lugar.


P.S.: Aos que por aqui passam, perdoem tantos posts assim, tristes. Não queria que fosse assim, mas é realmente uma fase difícil. Mas vai melhorar, isso é uma certeza. Além do mais, sei bem que poderia ser pior... Prometo mudar de assunto.

12 comentários:

Luís Gonçalves Ferreira disse...

Angel, anda-se aqui a passar alguma coisa de muito estranho. As nossas afinidades são mais que muitas. Até nas angústias. Eu era capaz de apostar que você é a amiga-tipo, de sonho, que qualquer pessoa quereria ter. Juraria, na ousadia claro, que está lá, em todos os momentos, para dizer a verdade, mesmo que ela seja dura. Os amigos não gostam, mas depois agradecem. Se é assim, somos oficialmente muito parecidos.

Mesmo que não seja, tenho-lhe a dizer que um dos maiores dilemas da minha curta vida é o mesmo que o seu. Ser amigo, de corpo e alma, é muito muito raro. Digo-o por experiência própria. Eu sei que sou um amigo eficiente. Às vezes sinto falta de um eu igual a mim que me diga o que eu diria perante uma certa situação. Como um ente externo à minha consciência que esteja lá, sempre, como eu estou para os outros. Somos raros, Angel. A probabilidade de encontramos um alguém como nós é difícil. Temos que aprender a viver dos bocados que os outros nos dão e agradecer, sempre. E depois criar defesas de auto-aconselhamento, como quem se cura, sem precisar de médico. Eu criei essa defesa, principalmente pelo exorcizar na escrita. Mas não pretiro os amigos. Eles são vitais. Estarei com eles sempre. Contudo, são mais as vezes em que estou eu e eles do que eles estão comigo. Mas essa é uma fatalidade natural do se ser forte para os olhos dos outros. Criamos, sem querer, uma imagem de autosuficiência, como se nunca estivéssemos tristes ou em desespero.

Tem aqui um amigo, mesmo que virtual (e a milhas de distância). Não sei porquê mas sinto uma enorme confiança, aí, nesse lado. :D

Um enorme beijo, Angel!

Luís Gonçalves Ferreira disse...

Ah! E não peça desculpa pelas tristezas. É suposto o blogue ser a nossa imagem, uma continuidade. Não gostaríamos de outra coisa que não a Angel, mas em letras. Só assim percebemos as suas urgências, alegrias e demais estados de alma.

:)

Jacque disse...

Aqui estou. Acreditem, navego no mesmo barco. Apenas aprendi a me desprender de tudo isso e viver sempre o próximo dia como se tivesse acabado de nascer. Não deixe de escrever o que sente, as palavras confortam.

Angel, você é admirável.

Jacque disse...

Deixo esses versos:

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo.

Fernando Pessoa

Angel disse...

Luís, estou aqui sem saber direito o que te dizer...

Suas palavras pareciam sair daqui, de dentro de mim. Você me leu, entendeu minha angústia, e soube descrever exatamente o que se passa. Como somos parecidos!

Não sei se sou a amiga que todos gostariam de ter, mas as pessoas gostam de estar comigo. Raramente estou de mal humor, faço brincadeiras, sou uma boa ouvinte, dou conselhos, mesmo tortos, pois não sou perfeita, mas tento. Só que, ultimamente, na grande maioria das vezes, finjo estar bem, justamente por não querer decepcionar as pessoas, que sempre viram em mim um esteio, alguém sempre forte com quem podiam contar (e isso você disse, somos, os dois, assim). Eu não me importava em ser mais por eles que eles por mim, mas isso porque eu tinha meus problemas mas ia empurrando eles para debaixo do tapete. Só que agora não dá mais, não cabe mais... Guardarei com muito carinho estas suas palavras "Temos que aprender a viver dos bocados que os outros nos dão e agradecer, sempre. E depois criar defesas de auto-aconselhamento, como quem se cura, sem precisar de médico.". Você não pode imaginar o quanto elas tocaram a mim. Preciso, com urgência, vivenciá-las.

E essa afinidade que sentes entre nós e nosso momento, é recíproca. E como fico feliz em ter encontrado você, meu amigo!

Não vou rejeitar a ajuda oferecida, preciso muito, muito dela. Guardo comigo seu endereço de e-mail, prometa que não irá se incomodar se receber algo meu de madrugada... rs.

Obrigada, Luís!

Meu abraço carinhoso, e um beijo desta que, mesmo do outro lado do oceano, admira-te bastante.

Angel disse...

Ei, Jacque, obrigada por vir... Aqui dentro, algo me dizia que poderia contar com uma palavra amiga vinda de você. Tenho tanto o que aprender... Queria ser mais forte, sabia?! Menos humana, sei lá. Mas, amanhã (ou melhor, daqui a pouco) vem ai um novo dia, e só nos cabe enfrentar.

Obrigada, minha amiga!

Um abraço carinhoso!

Jacque disse...

Eu fico na minha velha e desmedida angústia de ver o dia nascer. É... tem sido assim, muitas vezes. Como disse Fernando Pessoa: "A alma de outrem é outro universo". Só você sabe das suas dores... Sempre estou por aqui, minha linda. Tenho insônia crônica diagnosticada, rs!Até disso aí, tiro proveito, além de fazer versos, fico a observar as coisas...Tem um bem-te-vi que sempre dá o ar da graça nas primeiras horas da nefasta madrugada. Então, paro e observo sua presteza e alegria em receber o dia... Essas coisas me encantam, pois nesses detalhes, às vezes despercebidos, vejo Deus e a grandiosidade do que ele é.

Renovo-me.


Retribuo o carinho do abraço.

Angel disse...

Mais uma que importunarei de madrugada... rs. Vez ou outra vou aproveitar de sua insônia, então, amiga Jacque!

Obrigada!

Jacque disse...

Ah, vou fazer uma coisa agora que me deixa bem, hehehehe! Vou pegar minha Tornado 250 cc pilotar por essas ruas e parar para ver o lago, pois é... ainda tenho a chance de encontrar um insone por lá! Depois irei tomar café na feira livre... hum... aproveito e olho uns livros... ah! Dormir é para os fracos, rs (brincadeira!)

Beijo, tô indo! :)

Te cuida aí, guria!

Angel disse...

Jacque! Juízo, pelo amor de Deus!! Se cuida ai, hein?!

Mas confesso que vou ficar aqui com inveja... rs. Toma um chá por mim? Não gosto de café...

Se cuida também!

Beijão!

Juliana. disse...

Admiro tua sensibilidade.
Um sentimento assim também já me fez sentir só, precisando de alguém do lado, que pelo menos prestasse atenção no que digo, me ouvisse..
As vezes ofertamos tanto de nossos sentimentos e não recebemos com a mesma quantidade e qualidade!
Este é o mundo em que vivemos, sabe tem um coisa que nunca me esqueço quando estou só: "que há sempre alguém em algum lugar pensando em nós, esperando por nossa atenção e querendo nos fazer feliz..e essa pessoa também está da mesma forma, e um dia os olhos nossos vão se encontrar"..
só é preciso que passamos por esta tal solidão, para quando essa pessoa chegar, sentirmos o quanto é bom tê-la ao nosso lado e darmos valor!!

Um grande e terno abraço!!

Angel disse...

Juliana, que lindo jeito de encarar esse momento! Acho que irá me acalmar pensar assim, que não estou tão sozinha como imagino estar. Lá vamos nós de novo para aquela frase "tudo ao seu tempo, tudo tem a hora certa".

Obrigada, minha cara!

Abraço carinhoso.

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