10 de junho de 2010

Não é tão ruim se machucar...

Eu tinha nove anos quando, certa noite, minha mãe precisou sair. Morávamos só nós duas e como ela não poderia me levar junto fiquei em casa, sozinha. Antes de sair, e com uma expressão séria que só ela sabia fazer, minha mãe me disse “não vá lá fora que já está ficando tarde, mesmo que seus amigos te chamem, é para você ficar aqui!”. Suspirei... Sempre quis ir quando eles vinham me chamar, eu os ouvia brincando a poucos metros da minha casa, mas ela nunca me deixava ir. Mas, naquela noite, com uma boa dose de coragem e disposta a entrar correndo em casa assim que ela apontasse na esquina a duas quadras da minha casa, eu fui. Eles vieram, chamaram, e pela primeira vez fui brincar com meus amigos na rua, a noite.

Cerca de duas horas depois, no meio de um pique-pega, esbarrei em um deles e cai de um jeito tão estranho que torci o pé. Carma? Meu anjinho dizendo para nunca mais desobedecer minha mãe? Como esconder dela um pé torcido? E eu sentia dor não só pelo machucado, mas, pela certeza de que eu levaria umas boas varadas por tê-la desobedecido.

Pois doeu muito, chorei muito, ganhei um gesso e uma bronca da minha mãe (por pena ela só brigou). Mas, quer ouvir a parte boa da história? Quando ela saiu aquela noite e me mandou ficar em casa ela, obviamente, me fez uma imposição, mas, esta imposição trazia, intrínseca, um conselho também, porque sem dizer ela me disse “cuidado, minha filha, fique quietinha aqui neste lugar seguro, não vá se lançar ao mundo, não vá se arriscar, não quero que você se machuque”. E hoje eu percebo, avaliando aquele dia, uma coisa incrível: eu não ligo se me machucar!

Naquele dia, por mais que o fim tenha sido trágico, por mais que eu tenha sentido muita dor, todo o resto, todo o antes, valeu muito a pena. Eu conheci crianças que ainda não conhecia, soube como era brincar com todos juntos porque durante a semana uma parte ia para escola de manhã e outra parte a tarde, e aos finais de semana cada um tinha seus compromissos familiares, por assim dizer. Se não bastasse, conheci aquele que viria a ser o meu primeiro amor! Imagina que sensação boa?!

E eu faria de novo se pudesse e preciso fosse, mas, isso eu só descobri com o tempo. A gente vai se encontrando, percebendo a vida e o que vela a pena, redescobrindo as lições que nos são dadas desde que éramos crianças! Eu hoje me preocupo menos com as regras, com as convenções, me privo menos. Deu vontade? Então, por quê não?! Há dores que valem a pena! Quer um exemplo? O amor. Sofrem por amor é fato consumado em qualquer relacionamento, porque em algum momento, a gente vai sofrer. Mas... Todo o resto não faz valer a pena?

Então repito, para que fique bem claro: eu não ligo mais se me machucar!


*Texto dedicado a um amigo, que, esta semana, docemente mandou um “deixa de ser covarde, Angel”, me fazendo relembrar que a felicidade são momentos.

15 comentários:

ErikaH Azzevedo disse...

E eu estou aqui mais uma vez a chorar por ouvir uma musica que diz exatamente isso..nos estimula a ter coragem de viver, de amar, de ser, de se entregar...
Conheci essa musica na madrugada de ontem e eu acho que já a ouvi desde ontem umas centenas de vezes e não me canso, sempre que paro pra ouvir com MUITA stenção acabo por chorar novamente de tão linda ue ela é...

Eu vou passar pra vc ela tá pq sinto que ela complementa muito o seu post...

Copia e cola o endereço dela ouve :

http://letras.terra.com.br/mafalda-veiga/999397/

Impulsiva disse...

Angel querida, sensacional!
Trazer um exemplo de infância e a partir dele discorrer sobre lições tão importantes, foi uma sacada de mestre, rsrs. Adorei, porque fica muito gostoso de ler...

Sabe, nas entrelinhas dos meus textos, quase todos, eu falo isso, quero experimentar, viver, se for me machucar, ok, mas não me privo de emoções, principalmente daquelas que me são irresistíveis. Talvez vem daí o Impulsiva, rsrs.

Bela lição de vida aprendeste, talvez uma das mais importantes de todas..."Tudo vale a pena se a alma não é pequena" já dizia o grande Fernando Pessoa.

Parabéns, belíssimo texto!

Beijos,
Kenia.

ErikaH Azzevedo disse...

Pedes-me um tempo,
para balanço de vida.
Mas eu sou de letras,
não me sei dividir.
Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair..

Pedes-me um sonho,
para fazer de chão.
Mas eu desses não tenho,
só dos de voar.

Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.

De quê?

De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que
paixão?

De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração...


Pedes o mundo
dentro das mãos fechadas
e o que cabe é pouco
mas é tudo o que tens.
Esqueces que às vezes,
quando falha o chão,
o salto é sem rede
e tens de abrir as mãos.

Pedes-me um sonho
para juntar os pedaços
mas nem tudo o que parte
se volta a colar.

E agarras a minha mão
com a tua mão e prendes-me
e dizes-me para te salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração.


Percebes né...vês pq amo tanto essa musica...ela nos ensina a mergulhar nas coisas sem medo d que nos falte o ar, pq qdo nos falta o ar é que temos a necessidade de vida a grudar na pele.

Vida só se conjuga na entrega..

bjos flor

Erikah

IT disse...

"Então repito, para que fique bem claro: eu não ligo mais se me machucar"

Uma "anja" do "pedaços de nuvem" amadureceu.
Talvez,quem sabe! anjos já nascem maturos?!.

Bjos com admiração!

Meri Pellens disse...

Eu ligo se o machucado for muito grande. Mas viver é um risco, temos que tentar sempre ser feliz apesar dos machucados.
Beijos na alma!

Desabafando disse...

Que linda lição vc tirou do episódio. Acho sim que temos que nos arriscar porque é com nossos erros e quedas que aprendemos e vivemos.

Marcelo Mayer disse...

por isso deus inventou a cevada, ou o homem, ou o diabo... já não sei

Angel disse...

Kenia, e não é que você está certa?! À esse mesmo amigo eu disse que se não prejudica a ninguém, nem a você mesmo, por que não?! Já me privei de tantas coisas, de tantas sensações... Bobagem, mas eu, na época, não tinha como saber.

Bom essa identificação, amiga! Somos duas a viverciar a vida em todos os seus sabores...

Obrigada pelo carinho, viu?!

Abraço!

Angel disse...

ErikaH, eu também sou assim... Quando "cismo" com uma música, haja ouvidos... rs.

Vou ouvir também, e se eu chorar a culpa é sua, viu!! rsrs. Brincadeira.

Flor, a letra é linda, palavras que em meio a uma melodia devem ter ficado lindíssimas.

Obrigada!

Abraço, flor!

P.S.: Não chora!!

Angel disse...

Irlene, anjos, na verdade, nascem imaturos, mas, caem da nuvem logo cedo e já começam a crescer! rs.

Obrigada pelo carinho, minha amiga!

Abraço.

Angel disse...

É Meri... seria bom se fóssemos avisados antes quando da possibilidade de um machucado muito grande, mas... infelzmente, não há como saber. O jeito é arriscar, não é mesmo?!

Abraço!

Angel disse...

Pois é, flor! E veja você, foi preciso, literalmente cair (e torcer o pé) para saber que nem tudo são flores, mas, que por vezes, algumas dores, valem a pena.

Abraço!

Angel disse...

Mayer, há coisas que é melhor nem saber... rs.

Abraço!

Impulsiva disse...

Linda, tem um presentinho para você no meu blog.
Beijos,
Kenia.

Angel disse...

Kenia, vou lá buscar, flor! Já agradeço desde aqui... rs.

Abraço!

Postar um comentário