14 de dezembro de 2009

Era uma vez...

Acendeu um cigarro e pediu outra bebida. Anos atrás, se alguém lhe dissesse que um dia estaria assim, sozinha em um bar, bebendo e fumando, ela chamaria de louco sem nem pensar. Pois lá estava, bem vestida, com uma blusa branca generosamente decotada que deixava ombros e colo totalmente à mostra, uma saia justa não muito curta e nos pés um belo par de sandálias, os longos cabelos, negros e lisos, cobriam parte de seu rosto maquiado. As unhas vermelhas quase não contrastavam com o tinto do vinho que lhe fazia companhia desde que chegou. Sentada frente ao balcão, via, sem ver, o vai e vem das pessoas, tudo tão sem importância que era como se não houvesse mais ninguém ali. Nem mesmo a música valia a pena escutar... "Preciso de Dylan...", pensou ela, esboçando um sorriso. Vinho tinto, Bob Dylan e cigarros... era assim que definiria uma noite perfeita. Pena não ter o Dylan, mas se virou bem com o vinho e os cigarros.

Enquanto fumava, suspirava, como se o liberar de cada trago valesse uma confissão. Tinha tanto a dizer, tantos sentimentos contidos que suplicavam para sair. Mas ela preferia guardá-los para si, talvez por medo ou talvez por falta de quem os, sinceramente, ouvisse. Em sua mente refez seu caminho até chegar ali... não o trajeto que a levara até aquele lugar, mas o caminho que percorreu em sua vida. Tentou lembrar-se de cada detalhe, de cada palavra ou ação, das possíveis causas que a levaram a se tornam quem é hoje. Lembrou-se de muita coisa, reencontrou alguns fantasmas. "Nove anos...", pensou. Há nove anos começava a ver que o mundo não é cor-de-rosa, começava a ver do que as pessoas são capazes, há nove anos perdia uma parte sua que nunca mais poderia recuperar. Por um momento sentiu pena de si, lágrimas ameaçarem, mas pensou na promessa que se fizera e nunca mais ia se lamentar pelo que passou. Ela sabia que não tinha sido fácil, mas sabia também que poderia ter sido bem pior.

Cansada das lembranças, resolveu se deixar envolver por aquele lugar. Haviam ali muitas outras pessoas, belas, sorrindo, conversando, como se as suas vidas se resumisse à aquele momento. E vai ver, resumia-se mesmo. Não é isso que dizem? Que a vida é feita de momentos? Para elas parecia que nada mais importava, a não ser estar ali. E por que não fazer o mesmo? Por que não se deixar levar pela superficialidade durante algumas horas? E assim o fez, libertou-se de todo o resto e se permitiu ser o que era, uma bela mulher, sozinha em um elegante lugar, apreciando um bom vinho e aliviando a tensão em alguns cigarros. E descobriu que poderia se divertir observando às pessoas, e que algumas delas poderiam lhe proporcionar uma agradável conversa.

Ao final da noite, voltou a ser o que se tornou com o tempo, e tudo acabou como sempre acaba. Linda, alheia, e agora acompanhada, ao menos, por uma noite.

12 comentários:

leonel disse...

Vinho e Bob Dylan são uma boa cia. Só não curto cigarros. Nem o lado mais bad boy da minha asma bandida. Mas, nem tudo é perfeito nessa vida.

Viviane Zion disse...

engraçado como às vezes eu lendo as suas postages, tenho uma impressão de proximidade muito forte! os primeiros posts, ou quando vc escreve sobre "perdas" então...
as emoções nos tornam muito parecidos; aliás, uma música acho que do Cazuza diz isso: "todo mundo é parecido quando sente dor"
>
>
>
e como as pessoas (a gente mesmo, no geral) fazem coisas que jamais imaginou fazer quando está submetido a uma dor tão intensa que chega a ser cortante...
>
>
>
também não curto cigarros. nem bebida. bob dylan, guardadas as devidas proporções... afogo as minhas mágoas na música, na poesia, no meu blog, nas paisagens. eu acho que as dores têm me feito até bem! tem ampliado a minha visão e aguçado o meu olhar pras coisas que certamente eu não enxergaria em dias de festa e bonança...
>
>
>
acho que por hora é só. sinto-me honrada com suas visitas...
shalom.

DirtyBoy disse...

adoro bebida, adoro cigarros! Bob Dylan nem tanto, prefiro a discípula CatPower... e às vzs uma taça de vinho nos transporta pra tãO longe, lugares onde já não vale mais a pena voltar, mas insistimos, não sei porquê!quer dizer... é que às vzs ainda da pra sentir o gosto bom da ingenuidade, né?!

adorei o texto!

Angel disse...

Leo, e eu que sempre te imaginei sentado com uma bela mesa à sua frente, uma chícara de café e alguns cigarros, escrevendo em uma folha de papel amarelada... Acho que fantasiei um escritor... rs. Mas você me parece mesmo do tipo que não gosta de cigarros, um amante de vinho tinto (eu diria que um bom vinho do Porto) e ótimas cias. Acertei?

Angel disse...

Viviane, se você se identificou com minhas postagens, me permita dizer que me identifiquei profundamente com um trecho de seu comentário: "e como as pessoas (a gente mesmo, no geral) fazem coisas que jamais imaginou fazer quando está submetido a uma dor tão intensa que chega a ser cortante...". Sei bem o que quis dizer, e concordo plenamente.

Antes eu desacreditava que maus momentos serviam de aprendizado, por mais que as pessoas me dissessem isso e por mais que eu tentasse acreditar. Hoje vejo que pode sim ser dessa maneira, e que acabamos pessoas melhores tanto no amor quanto na dor!

Obrigada pela visita!

Abraço.

Angel disse...

Dirty, por que insistimos em reviver o passado? E parece que quanto mais sofrido, mais o fazemos. Masoquistas natos? rs... Ou seríamos puro sentimento? Vai saber.

Seu blog é incrível, adoro as histórias, por isso fiquei muito feliz em saber que gostou do meu texto!

Abraços!

leonel disse...

Angel, o que não poderia dizer da mente humana, eu digo da mente dos anjos... Já se fora o tempo em que eu escrevia aos goles de uma xícara de chá (odeio café, diga-se concretamente), enquanto deixava queimar alguns Godans, em cima da mesa (só curtia o cheiro, jamais traguei) e algumas palavras em papel amarelecido. Hoje, sou, confesso, resistente usuário lacaio de minha olivetti, uma bela taça do Porto (acertaste), e, algumas, poucas, mas válidas cias... Machado de Assis é uma delas...

Abraço! E não coloque fogo no céu! Não sei pq, mas todas as vezes que vejo um por do sol, imagino a mão de um anjo incendiando alguma nuvem...

leonel disse...

ah... e diga-se de passagem:

"... a mão de um anjo meio cabelinho na venta, incendiando alguma nuvem..."

Viviane Zion disse...

Caríssima Angel,

Diante dos maus momentos só temos duas alternativas: ou sucumbimos à dor ou tentamos extrair dela alguma coisa proveitosa (para nós, é claro, caso consigamos sobrviver a ela)...

Sou afeita a dores... Elas me acompanham, me perseguem desde sempre: sobretudo a da perda. Mais especifcamente a "perda" da presença das pessoas que eu gostaria de ter por perto por mais tempo mas sempre-sempre se despedem antes...
Tenho percebido, nos últimos dias que elas (as dores) acabam por tornar mais intensos os momentos de satisfação, de alegria, de prazer. Meio que a dor pra mim virou parâmetro de comparação, taxa de câmbio quando tenho que avaliar o instante vivido.
E como eu tenho vivido!!! Intensamente e intensivamente. Já que é pra sentir, que seja pra valer. Já que é pra perder, que eu sinta mesmo a falta, que rasgue o coração, que desidrate de tanto chorar...

Ô vida!

Shalom.

Angel disse...

Leo, uma olivetti? Se refere a uma máquina de escrever? Daquelas que se você erra uma letrinha tem que datilografar (gente, pensei que nunca mais usaria essa palavra!) tudo de novo? Nossa, pensando nisso, imagino quantas e quantas vezes você já reescreveu o seu passado (digita, erra, redigita, erra...) rsrs. Brincadeira usando o nome do seu blog. Enfim, minha irmã tinha uma, acho até que ainda está guardada em algum lugar...

Quanto ao por do sol, depende do anjo responsável, de plantão, mas quando for minha vez pode deixar que farei um especial para você!

Abraços.

Angel disse...

Viviane, que comentário incrível! Realmente temos muito em comum. Assim como você, uso meus piores momentos como parâmetro para aproveitar, ou aprender, na vida. Aproveite mesmo cada segundo, feliz ou triste. Dos momentos felizes ficarão a saudade e dos tristes o aprendizado.

Abraços!

leonel disse...

Pois é, angel! Sou um cara que ainda curte usar a a boa e velha olivetti (nem sempre, confesso), sujar os dedos de tinta, de uma caneta tinteiro, ou então os dos meus pincéis. Mas, pelo visto, não sou o único que memora as velhas formas de comunicação. Ao que vejo, tu, Angel, é adepta ao velho sinal de fumaça...

Abraço!

Postar um comentário